
Sentei-me junto dele disposta a contar-lhe tudo bem sei que não estava ali o meu ouvinte ideal mas também que importância tinha que ele já tivesse morrido mortos ou vivos são todos os mesmos nenhuns sabem ouvir como deviam nenhuns sabem responder no tempo certo e se todas as conversas são afinal de surdos para surdos tanto fazia ele estar morto como estar vivo aliás havia uma vantagem ele não era deste século nem deste tempo nem nada e não vale a pena pensarem que estou demente porque estou mesmo se falo com um homem do século XIX é porque os deste tempo já não conseguem escutar a não ser as regurgitâncias do seu próprio umbigo e ele que se chamava Soren este nome impossível de pronunciar em português mas que os dinamarqueses conhecem bem bem pode compreender melhor do que ninguém o cerne da minha questão mas é claro que a conversa tem que ser longa e se não queres escutar porque te sentaste aqui com esse olhar ávido descansa vou falar alto e assim poderás ouvir tanto como ele ou ainda mais e olha serás a testemunha bem sei que não vamos a julgamento nem é preciso mas uma testemunha dá sempre jeito nos dias que correm e ouve não te mexas tanto porque me tiras a necessária concentração não não vou invocar os mortos que ideia nem é preciso estás a ver tenho aqui duas fotografias dele nesta parece mesmo o dandy repara no rosto delicado no lábio pronto para o beijo na cabeleira composta nas golas bem vincadas falo com este rapazinho de traços um tudo nada efeminados ou pelo contrário dirijo-me àquela espécie de velho corcunda desleixado e sorumbático se são o mesmo talvez mas afinal nem sei qual o estádio dele que mais me convém se o jovem sedutor de Copenhaga ou o desvalido Soren do tempo religioso o primeiro não saberá talvez ouvir-me perdido nas suas próprias deambulações pelo universo feminino o segundo não poderá escutar-me afundado no mergulho solipsista do seu próprio eu falarei então sozinha e vou usá-lo como se ele me ouvisse pois não é isso o que todos fazem usarem-se como ouvintes transformarem o próximo em grandes orelhas privadas do resto do corpo estás agora a ler por cima do meu ombro já sei que não pus vírgulas nem pontos nem sequer mudei de linha nos parágrafos estou pior que o Saramago não valho nada como narradora que adiantou estudar anos a fio e ler os melhores escritores se agora escrevo desta forma inconveniente é por tua causa ouviste já que estás com tanta curiosidade e queres perceber a história porque bem sabes que vem aí intriga poderosa e tu já não gostas de telenovelas terás que criar os parágrafos e inventar o sítio das vírgulas e dos outros pontos

5 comments:
Peguei numa mão cheia de pontos e de vírgulas e atirei-os sobre o texto para ver se este "Saramagiano" texto fazia sentido. Não fez. Repeti a dose com o mesmo resultado. Mudei de táctica e comecei a lançar alguns advérbios em vez de pontuação. Deu no mesmo. No entanto, algumas coisas começaram a fazer sentido quando usei a borracha. Informação a mais pode ser tão nociva quanto informação a menos.
Lamento muito que o meu comentário tenha sido tomado como destrutivo, não o foi!
Minhas humildes desculpas.
Atirei uma mão cheia de pontos e vírgulas sobre o texto...lancei advérbios em vez de pontuação...algumas coisas começaram a fezer sentido quando usei a borracha...
1º Não fez sentido porque não tinha pontos e vírgulas;
2º Os advérbios (quais?) também não lhe deram o sentido;
3º Usei a borracha e as coisas começaram a fazer sentido...e para que serve uma borracha senão para apagar o que se escreve?
Portanto, reduziu o texto a zero e aí fez sentido porque cortou o mal pela raiz!
Informação a mais pode ser tão nociva quanto informação a menos... concordo, mas não se aplica! De que informação está a falar? Da minha, a quem chama saramagiana? Da sua, que não lhe permitiu entender o que pode estar subjacente a um texto escrito para lá das regras, porque a arte é isso mesmo, INFRINGIR regras?
Gostava muito de saber o que faz,ao certo, quando se intitula Músico!
Minhas humildes desculpas...não consigo deixar de ver aqui a continuação do sarcasmo!
Sarabanda, vamos esclarecer uma coisa.
No meu primeiro comentário, onde você leu um crítica destrutiva ao texto eu fiz somente um tipo de leitura e foi há tanto tempo que nem lembro mais porque escrevi o que escrevi. Sinceramente digo (sem sarcasmo algum) depois da sua agressividade para comigo fiquei sem vontade alguma de reler o texto e tentar perceber o porquê.
Quanto à sua análise ao meu comentário, mesmo discordando profundamente dela, tenho de a respeitar, é a sua opinião.
Já agora, sou músico amador (aquele que ama) e uma das peças que mais prazer me dá tocar é a Sarabanda em Si menor da 1ª Sonata para violino solo de J.S.Bach
Só mais uma coisa para terminar a minha participação nestes comentários:
O cinismo não é uma constante da vida, de vez em quando há pessoas que pedem desculpas com sinceridade.
Fique em paz
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