Saturday, November 18, 2006

Desamarrar as palavras

ROSA PENSATIVA, Salvador Dalí
DESAMARRAR AS PALAVRAS
Reparem comigo nesta palavra: BELA.
Assim mesmo,
BELA,
BELA,
BELA.
Repitam-na até se tornar a substância própria do vosso sentir.
Verão imagens a nascer
e serão torrentes,
florestas,
mares,
céus e horizontes,
estrelas ou nuvens de poente,
prodígios,
ou,
quem sabe?
a matéria esculpida
do vosso desejo,
a mulher que vos inebria,
o rosto que vos faz estremecer!
Mas depois
juntem-lhe um sufixo
de superlatividade
e digam
BELÍSSIMA!
A torrente,
a floresta,
o mar,
o céu,
o horizonte,
as estrelas e as nuvens
a mulher... o rosto...
ah, como se incrustaram de poder!
Mas não se fiquem por aí!
Murmurem
essa palavra
tornada
substância de desejo
e força de sedução
murmurem-na,
assim mesmo,
como quem sopra,
ao ouvido daquela que escolheram,
digam-lhe
como é
BELÍSSIMA
a voz com que vos fala,
a mão com que vos escreve,
os olhos que vos contemplam,
a boca que modula as palavras...
digam-lhe tudo isso ,
vá!
Que esperam que aconteça
do outro lado?
Como pensam que vai sentir-se
a pessoa
que acabastes de adjectivar
desse modo altaneiro?
Isso mesmo,
adivinhastes,
ela vai acreditar!
E o espelho,
o vento,
o ar,
as nuvens
vão reflectir
até ao infinito
o som
desse ciciar...
ouvi bem...
escutai...
BELÍSSIMA!!!
(Nunca esta palavra produziu tanto efeito nos meus ouvidos como no dia em que serviu para adjectivar tudo o que eu representava para um outro alguém! E nunca a dor foi tão poderosa como no dia em que eu soube que a palavra fora usada apenas como força superlativa de sedução!
E é por isso que escrevo sobre palavras a ver se lhes retiro a carga paradoxal de sublimidade e de fracasso!
A palavra BELÍSSIMA nunca mais foi a mesma, está marcada, absolutamente amalgamada a um rosto, a um corpo, a uma voz!
Por favor, ajudem-me a desamarrar as palavras!)

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