Wednesday, November 15, 2006

Esboço de crónica sobre as palavras



RENÉ MAGRITTE
As palavras... escrevia eu há dias, as palavras... e no entanto hoje todas elas me cansam! Feitas elemento excepcional de comunicação já que, entre todas as espécies, somos os únicos que a elas acedemos para nos enunciarmos, por elas também nos vamos, quotidianamente, desentendendo... Como é possível ter voz e prendê-la dentro de si? Que medo é esse que acorrenta os seres nas paredes do seu quarto que podem muito bem ser as paredes da sua própria mente? Não os entendo, a tais emparedados!
Hoje, sei que são doentes todos aqueles que, tendo voz e palavras para serem soltadas, as prendem avaramente no sótão da própria mente, ou então desatam a lançá-las, por pura diversão, atingindo, com elas, uma mente sensível! Cuidado! Melhor fora terem-nas calado para sempre, pois ignoraram cruelmente a responsabilidade que engendraram em si próprios quando criaram no outro a expectativa da comunhão...
Sei bem que este texto é ambíguo e que não chegará a quem de direito... esses hão-de ficar na ignorância porque a eles não devo dar mais nenhuma palavra! E pode bem ser que alguém que esteja a ponto de seduzir outrem por esta via para depois lançar o seduzido no vazio de um desprezo que cedo se tornará frustração e melancolia, pode bem ser, dizia eu, que ele me leia antes e use as palvras com honestidade e coerência... ou então que se cale!

2 comments:

Unknown said...

Visitei-a, Joana, mas fiquei com receio de que, ao escrever, pudesse magoá-la. Brinco, certamente, mas permita-me que lhe diga que as palavras são o veículo que usamos para nos exprimir em liberdade, e essa, não tem restrições, ou não se chamaria assim.

Sarabanda said...

Sim, António, a liberdade! Mas agora imagine que usamos esse veículo sem restrições, como diz, e, ao fazê-lo, imprimimos no interlocutor a expectativa de que ali há substância, de que por ali podemos aceder ao encontro! E depois, quando o interlocutor se havia deixado deleitar na esperança, eis que lhe arrancam o chão deixando-o mais pobre que antes!
As palavras, caro António, são actos e os actos, sendo intrinsecamente humanos, tornam-nos responsáveis, pois reflectem-se sobre os outros e alteram-lhe a respectiva esfera...
Obrigada por ter sido o meu primeiro comentador neste recém-nascido espaço de comunicação! E não tenha medo de me ferir! Aliás, as próprias feridas têm um extraordinário valor: possibilitam a cura e o renascimento e nessa altura sabemos que estamos mais vivos do que nunca!

(Bem sei que este texto encerra contradições... mas a contradição é o meu território por excelência!)

Um abraço!