Monday, November 27, 2006

Falar com Soren




Sentei-me junto dele disposta a contar-lhe tudo bem sei que não estava ali o meu ouvinte ideal mas também que importância tinha que ele já tivesse morrido mortos ou vivos são todos os mesmos nenhuns sabem ouvir como deviam nenhuns sabem responder no tempo certo e se todas as conversas são afinal de surdos para surdos tanto fazia ele estar morto como estar vivo aliás havia uma vantagem ele não era deste século nem deste tempo nem nada e não vale a pena pensarem que estou demente porque estou mesmo se falo com um homem do século XIX é porque os deste tempo já não conseguem escutar a não ser as regurgitâncias do seu próprio umbigo e ele que se chamava Soren este nome impossível de pronunciar em português mas que os dinamarqueses conhecem bem bem pode compreender melhor do que ninguém o cerne da minha questão mas é claro que a conversa tem que ser longa e se não queres escutar porque te sentaste aqui com esse olhar ávido descansa vou falar alto e assim poderás ouvir tanto como ele ou ainda mais e olha serás a testemunha bem sei que não vamos a julgamento nem é preciso mas uma testemunha dá sempre jeito nos dias que correm e ouve não te mexas tanto porque me tiras a necessária concentração não não vou invocar os mortos que ideia nem é preciso estás a ver tenho aqui duas fotografias dele nesta parece mesmo o dandy repara no rosto delicado no lábio pronto para o beijo na cabeleira composta nas golas bem vincadas falo com este rapazinho de traços um tudo nada efeminados ou pelo contrário dirijo-me àquela espécie de velho corcunda desleixado e sorumbático se são o mesmo talvez mas afinal nem sei qual o estádio dele que mais me convém se o jovem sedutor de Copenhaga ou o desvalido Soren do tempo religioso o primeiro não saberá talvez ouvir-me perdido nas suas próprias deambulações pelo universo feminino o segundo não poderá escutar-me afundado no mergulho solipsista do seu próprio eu falarei então sozinha e vou usá-lo como se ele me ouvisse pois não é isso o que todos fazem usarem-se como ouvintes transformarem o próximo em grandes orelhas privadas do resto do corpo estás agora a ler por cima do meu ombro já sei que não pus vírgulas nem pontos nem sequer mudei de linha nos parágrafos estou pior que o Saramago não valho nada como narradora que adiantou estudar anos a fio e ler os melhores escritores se agora escrevo desta forma inconveniente é por tua causa ouviste já que estás com tanta curiosidade e queres perceber a história porque bem sabes que vem aí intriga poderosa e tu já não gostas de telenovelas terás que criar os parágrafos e inventar o sítio das vírgulas e dos outros pontos

Friday, November 24, 2006

Pontes



PONTES





Pontes sem rio as pontes sem margens os rios e as fontes dispersas pelas correntes atiradas no outono e logo achadas em ruas desertas por onde vagueiam os absurdos enraizados em sobretudos cinzentos tecidos em tumultuosas malhas apertadas em torno dos artelhos eu acho que te vi lá fora abrias um guarda chuva vermelho que não conseguia tapar-te o brilho de um certo verde pendurado como faixa transparente na corrente líquida do teu olhar puro estavas de costas porém por cima dos cabelos ostentavas uma espécie de coroa e eu não soube dizer se era de rei ou de palhaço porque quando olhei de novo já não estavas lá e apenas um rasto logo disperso no riacho turbulento dos mananciais tempestuosos de um inverno precoce me mostraram os passos que por ali deixaste e no entanto sempre gostei de pontes de espreitar o rio de pensar atirar-me nas águas fundas não querendo fazê-lo mas procurando entender a emergência dessa espécie de voo absurdo rumo a um leito sem foz mas sempre que por debaixo desses lanços de pedra que aproximam vazios não se derrama um poderoso escorregar de águas profundas é como se o sentido houvesse de perder-se para sempre

Tuesday, November 21, 2006

Fantasia

fantasia
sonho
premonição
vagas
(vagabundos)
homens
prisioneiros
intempéries
(um abismo)
(as marés)
inverno
princesa
nevoeiro
fantasmas
( uma nuvem
e as rédeas)
jardins
palácios
e trevas
... e algures
a madrugada
partida
pelo luar
que atravessa
um buraco
de coruja
entoou
um cântico
secreto
e deixou
suspensa
a lágrima
no olhar
...outrora
quando os elfos
partiam
rumo
a certas cavalgadas
pelos bosques
marchetados
na luz
do anoitecer
ouvia-se
um trovão
vagabundo
que tanto podia ser
de praga
como de evasão
( e eu soube
que por detrás
do arco íris
havia
um pedaço de azul
e o sol
não tardaria
a romper
o bloqueio
da nuvem)

Monday, November 20, 2006

Palavras...ainda as palavras!

Palavras, ainda as palavras, sempre as palavras como tudo o que me define e me arrebata... ARREBATA: eis outro signo marcado pelo estigma sedutório que urge reabilitar, bem como todas as que a ela se ligam por derivação tais como arrebatador, arrebatamento...(arrebataçao???)... Pode ser que um linguista psicólogo venha ler este blog e me ajude a desamarrar palavras!
Como tudo o que é humano e aspira à liberdade também as palavras carecem da desapropriação, das grilhetas que as tornam sinais de fracasso, indicio de mentira, sinal de embuste.
Vou contrapor a este signo manchado pela farsa, este outro que, ao contrário, soa nos meus ouvidos e dança perante o meu olhar feito sinal de vitória... e a palavra é IMPONENTE!
Imponente simboliza o poder de uma postura, significa a força de uma alma que se enuncia no olhar e no gesto, traduz a verticalidade do ser a quem as intempéries não logram derrubar!
Mas será que a Imponência permite ceder ao arrebatamento... ao arrebatador? Permite, é claro que permite ou não seria imponente em absoluto, ou não teria o poder de erguer-se após a queda num deslize dos sentidos... Ser imponente não significa ter como matéria a pedra ou o ferro e erigir-se somente como estátua, ser imponente representa arrebatar-se a si mesmo, ainda que sob o efeito consciente de outrem e permanecer no pedestal psicológico a que só pode pertencer! Pedestal, notem bem, eu compreendo que esta posição altaneira possa ser denunciadora de orgulho... mas... também a palavra orgulho eu quero reabilitar aqui e agora e faço-o, na justa medida em que é pelo orgulho que nos levantamos das trevas morais onde pode lançar-nos a sensação de fracasso!
Será que a ambiguidade permanece?

Sunday, November 19, 2006

Norma Universal



NORMA UNIVERSAL
Eu era prisioneiro da norma universal
sentia-me perfeitamente.
Abria portas, libertava pessoas,
corria-me tudo bem.
Foi então que apareceste,
com uma mala e uma cantiga,
deste-me volta à cabeça.
E agora sinto-me só,
ando à procura de um lar,
A toda a parte onde vou.
Sou o homem da liberdade, sou o homem da liberdade.
Sou o homem da liberdade, tal foi a sorte que tive.
Jim Morrison

http://invinoveritas45.blogspot.com/

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Saturday, November 18, 2006

Desamarrar as palavras

ROSA PENSATIVA, Salvador Dalí
DESAMARRAR AS PALAVRAS
Reparem comigo nesta palavra: BELA.
Assim mesmo,
BELA,
BELA,
BELA.
Repitam-na até se tornar a substância própria do vosso sentir.
Verão imagens a nascer
e serão torrentes,
florestas,
mares,
céus e horizontes,
estrelas ou nuvens de poente,
prodígios,
ou,
quem sabe?
a matéria esculpida
do vosso desejo,
a mulher que vos inebria,
o rosto que vos faz estremecer!
Mas depois
juntem-lhe um sufixo
de superlatividade
e digam
BELÍSSIMA!
A torrente,
a floresta,
o mar,
o céu,
o horizonte,
as estrelas e as nuvens
a mulher... o rosto...
ah, como se incrustaram de poder!
Mas não se fiquem por aí!
Murmurem
essa palavra
tornada
substância de desejo
e força de sedução
murmurem-na,
assim mesmo,
como quem sopra,
ao ouvido daquela que escolheram,
digam-lhe
como é
BELÍSSIMA
a voz com que vos fala,
a mão com que vos escreve,
os olhos que vos contemplam,
a boca que modula as palavras...
digam-lhe tudo isso ,
vá!
Que esperam que aconteça
do outro lado?
Como pensam que vai sentir-se
a pessoa
que acabastes de adjectivar
desse modo altaneiro?
Isso mesmo,
adivinhastes,
ela vai acreditar!
E o espelho,
o vento,
o ar,
as nuvens
vão reflectir
até ao infinito
o som
desse ciciar...
ouvi bem...
escutai...
BELÍSSIMA!!!
(Nunca esta palavra produziu tanto efeito nos meus ouvidos como no dia em que serviu para adjectivar tudo o que eu representava para um outro alguém! E nunca a dor foi tão poderosa como no dia em que eu soube que a palavra fora usada apenas como força superlativa de sedução!
E é por isso que escrevo sobre palavras a ver se lhes retiro a carga paradoxal de sublimidade e de fracasso!
A palavra BELÍSSIMA nunca mais foi a mesma, está marcada, absolutamente amalgamada a um rosto, a um corpo, a uma voz!
Por favor, ajudem-me a desamarrar as palavras!)

Wednesday, November 15, 2006

Esboço de crónica sobre as palavras



RENÉ MAGRITTE
As palavras... escrevia eu há dias, as palavras... e no entanto hoje todas elas me cansam! Feitas elemento excepcional de comunicação já que, entre todas as espécies, somos os únicos que a elas acedemos para nos enunciarmos, por elas também nos vamos, quotidianamente, desentendendo... Como é possível ter voz e prendê-la dentro de si? Que medo é esse que acorrenta os seres nas paredes do seu quarto que podem muito bem ser as paredes da sua própria mente? Não os entendo, a tais emparedados!
Hoje, sei que são doentes todos aqueles que, tendo voz e palavras para serem soltadas, as prendem avaramente no sótão da própria mente, ou então desatam a lançá-las, por pura diversão, atingindo, com elas, uma mente sensível! Cuidado! Melhor fora terem-nas calado para sempre, pois ignoraram cruelmente a responsabilidade que engendraram em si próprios quando criaram no outro a expectativa da comunhão...
Sei bem que este texto é ambíguo e que não chegará a quem de direito... esses hão-de ficar na ignorância porque a eles não devo dar mais nenhuma palavra! E pode bem ser que alguém que esteja a ponto de seduzir outrem por esta via para depois lançar o seduzido no vazio de um desprezo que cedo se tornará frustração e melancolia, pode bem ser, dizia eu, que ele me leia antes e use as palvras com honestidade e coerência... ou então que se cale!

Tuesday, November 14, 2006

Concupiscência espiritual


Concupiscência ou: lascívia, sensualidade, voluptuosidade, luxúria, carnalidade... e agora acrescentrem-lhe o espiritual e o resultado é o eros grego de que fala Platão no Fedro.
O erotismo espiritual é muito diferente do erotismo físico, é um estado de alma, um arrebatamento do espírito, um estar preenchido pelo âmago do outro, um estar rendido a alguém no tópico do sagrado, na esfera do sublime. Para certos seres é a antecâmara própria da sedução ou mesmo a matéria única e singular do eros...
Concupiscência espiritual, luxúria da alma, voluptuosidade anímica... paradoxo?
Eis o ser do homem!

Sunday, November 12, 2006

Crónicas sobre as palavras I

René Magritte
Talvez aqui haja silêncio... quem sabe? e eu possa escrever como se o fizesse num caderno e nem sequer precise de utilizar um código secreto à semelhança do que outrora me obriguei a fazer. Agora pouco importa tal secretismo! Também não quero certos interlocutores, embora aceite todos os que de boa fé surgirem e até mesmo os de má fé, pois pouco me é dado saber sobre meras intenções quando delas não posso passsar ao facto e me fico na letra. Por isso, eis-me à vontade, hoje, dia 13 de Novembro de 2006, para iniciar a minha disertação sobre o poder das palavras. Todos sabemos que sem palavras não seríamos homens sequer, mas talvez apenas símios, arremedos de qualquer coisa ou de qualquer ser só tornado dono do mundo porque soltou a língua e modulou os sons, quase ao mesmo tempo que soltava as mãos e as abria a tarefas mais subtis que a simples locomoção. E então o cérebro especializou-se a tal ponto, ao longo dos milhares de séculos a que devemos a nossa suposta natureza, que hoje se ocupa essencialmente a cuidar de orientar o trabalho sublime das nossas mãos e da nossa boca! Vêde, reparai: tudo o que somos e fazemos de estritamente humano passa e deve-se ao esplêndido aperfeiçoamento dos nossos dedos e dos nossos lábios! O resto não é mais do que mera gesticulação animal, simples contracção e descontracção de músculos, em nada diferente dos nossos irmãos inferiores! Exagero meu? Bem, convido-vos a pensar no assunto ou então consultai umas enciclopédias de neurofisiologoa a fim de poderdes corrigir-me!
As palavras! O que não pode erigir-se em torno delas, com elas, por causa delas ou mesmo na ausência delas!
Foram elas que, um dia, se tornaram a substância de um ser, por elas acedi a criar um indivíduo que quase não teve rosto durante a maior parte do tempo e que, mesmo quando o ganhou, era estático e inexpressivo mas a que pude dar, por via das palavras, uma multiplicidade de cambiantes, um sem número de expressões e matizes. Não trocámos cartas, não. Usámos, para tecer uma trama ainda não conceptualizada mas a caminho de sê-lo, as teclas de uma máquina igual a esta e a tecnologia de lançar palavras e obter palavras numa troca em tempo real. Uso uma metáfora bem sei, mas estou no domínio privilegiado da imagem e esta figura de retórica convém-me sobremaneira.
E agora penso: quando ele me escrevia, que jeito tinham os dedos no toque das teclas? Mais: quais usava para premi-las: os indicadores de ambas as mãos? o anelar da direita e o indicador da esquerda? os anelares da direita e da esquerda? que combinação de dedos utilizou sempre que teclou as palavras que me chegavam, enredadas em mistério? E mais ainda: que hesitações teve no traçado das letras que compuseram cada palavra? Quantas apagou, querendo escrevê-las sem ter para tanto ousadia, e como as reescreveu, na antecipação do efeito da resposta almejada?
Como era a sala em que escrevia? Que cenário lhe oferecia a parede fronteira, que quadros na parede, que janelas, que plantas decorando o espaço? Que música lhe entrava nos ouvidos e como ajeitava as pernas debaixo da mesa e como eram essas pernas que assim se dobravam ou cruzavam ao sabor do impulso?
E o rosto, esse ignorado, de quantas expressões se foi compondo, quantas vezes mordeu o lábio, ou descerrou a boca num sorriso, como se lhe foram abrindo os olhos, cuja cor não soube, e como se iluminaram ou ofuscaram perante a palavra devolvida ou no próprio gesto de esculpir a frase?
Esteve sempre sozinho? Falava só comigo, escrevia só a mim, ou havia outros e outras em conversas cruzadas e adjacentes?
Sáo perguntas iniciais, bem o sei e apenas algumas das muitas que irão ocorrer-me à medida que delas for necessitando. E contudo, não saber hoje nada disto e ter a certeza de que nunca irei sabê-lo, ainda que, na hora em que recebia mensagens e lhes devolvia resposta, estas enunciações teriam feito sentido, faz-me permanecer atónita, perplexa: como pude inventar um homem, através das palavras, inventá-lo minuto a minuto ou segundo a segundo, no pequeno signo traçado no mísero rectângulo da máquina, e nunca inquirir sobre os dedos exactos que, naquele momento premiram as teclas da palavra de encantamento! Sim, porque eram sedutoras as mensagens e poderosas as palavras... e não deveria eu saber, questionar, sondar quais os músculos precisos que naquele preciso instante pressionaram os pequenos botões negros? Negros?! Seriam negros?! Os meu são... mas... e os dele? estão a ver? Nunca quis saber, ignoro a cor do teclado onde milhares de palavras foram fabricadas, ignoro com que jeito ele tocava o enter libertador da mensagem... e isso enche-me de surpresa! Passaram meses, tenho ocupado o meu pensamento com dezenas de profundas questões existenciais sobre este fenómeno a cujo tratamento dou início por esta via e, contudo, nada sei do que no fundo mais importa: quem era ele, esse meu interlocutor mediato, como era, que aspecto tinham as suas mãos, como as ajeitava sobre o teclado, como se lhe inclinavam as costas, se lhe dobravam os joelhos, que jeito era o dos seus lábios, onde deixava o cigarro... é verdade o cigarro!... onde o abandonava ele, quando precisava de todos os dedos para escrever ou será que o conservava entre os dedos mesmo escrevendo... ou ... segurava-o com a boca e apanhava-o depois com a mão... e seria a esquerda ou a direita? Ah, nunca soube qual a mão privilegiada na escrita manual, nunca soube sequer o jeito da caligrafia e de que modo assinava! E no entanto foram milhares as palavras que me escreveu e outros tantos milhares aquelas que lhe fui devolvendo!
Mas nada disto teria importância, se não fosse o resto! Primeiro a envolvência fatal e fatídica dos laços das palavras, depois a urgência pregnante do desvendamento físico!
Não, eu bem sei que nada disto parece fazer sentido... mas o certo é que começo a descobrir-lhe um e talvez ele seja o início da tomada de posse da ponta do fio que nos foi enredando até transformar-se num novelo gigantesco!
Atónita, rendida a um imenso absurdo comunicativo, encerro aqui a minha crónica inicial.

Hoje, liberto-me de toda a amargura e de todo o ressentimento. Afirmo que estou totalmente disposta a perdoar a toda a gente. Se pensar em alguém que me tenha prejudicado em qualquer momento da minha vida, abençoo-o com amor... e liberto-o! Sei que ninguém me pode tirar nada que me pertença por direito: aquilo que me pertence voltará sempre para mim, segundo a perfeição do Universo. Aquilo que não voltar é porque, de facto, não me pertence e, se algum dia me pareceu que pertencia, porque na minha vida entrou, um qualquer desígnio presidiu a essa entrada... e eu sei que um dia acabarei tendo acesso à sua compreensão! Aceito pacificamente esta ideia. Dissolver o ressentimento é extremamente importante. Confio em mim. Estou segura. Sou motivada pelo amor e não pelo ressentimento ou pelo ódio. (Adapatado de Louise L. Hay)

A Matéria do Desejo

Há palavras com que procuramos navegar:
distância, sombra, lâmpada, vazio.
E às vezes abrem-se repentinos corredores,
no silêncio de uma nuvem veneranda.
E se toda a ciência é esquecimento
que por dentro torna tudo grande
e por fora rasga varandas brancas
para um horizonte que nunca foi pensado,
é porque em nós subsistem estrelas de água
que sob os arcos da noite demoraram.
E então o olhar regressa à fonte
com a força grave e limpa de estar vendo
a matéria mesma do desejo
numa colina que se espraia sob a brisa
e não é ainda um nome e já o inicia.
António Ramos Rosa