René Magritte
Talvez aqui haja silêncio... quem sabe? e eu possa escrever como se o fizesse num caderno e nem sequer precise de utilizar um código secreto à semelhança do que outrora me obriguei a fazer. Agora pouco importa tal secretismo! Também não quero certos interlocutores, embora aceite todos os que de boa fé surgirem e até mesmo os de má fé, pois pouco me é dado saber sobre meras intenções quando delas não posso passsar ao facto e me fico na letra. Por isso, eis-me à vontade, hoje, dia 13 de Novembro de 2006, para iniciar a minha disertação sobre o poder das palavras. Todos sabemos que sem palavras não seríamos homens sequer, mas talvez apenas símios, arremedos de qualquer coisa ou de qualquer ser só tornado dono do mundo porque soltou a língua e modulou os sons, quase ao mesmo tempo que soltava as mãos e as abria a tarefas mais subtis que a simples locomoção. E então o cérebro especializou-se a tal ponto, ao longo dos milhares de séculos a que devemos a nossa suposta natureza, que hoje se ocupa essencialmente a cuidar de orientar o trabalho sublime das nossas mãos e da nossa boca! Vêde, reparai: tudo o que somos e fazemos de estritamente humano passa e deve-se ao esplêndido aperfeiçoamento dos nossos dedos e dos nossos lábios! O resto não é mais do que mera gesticulação animal, simples contracção e descontracção de músculos, em nada diferente dos nossos irmãos inferiores! Exagero meu? Bem, convido-vos a pensar no assunto ou então consultai umas enciclopédias de neurofisiologoa a fim de poderdes corrigir-me!
As palavras! O que não pode erigir-se em torno delas, com elas, por causa delas ou mesmo na ausência delas!
Foram elas que, um dia, se tornaram a substância de um ser, por elas acedi a criar um indivíduo que quase não teve rosto durante a maior parte do tempo e que, mesmo quando o ganhou, era estático e inexpressivo mas a que pude dar, por via das palavras, uma multiplicidade de cambiantes, um sem número de expressões e matizes. Não trocámos cartas, não. Usámos, para tecer uma trama ainda não conceptualizada mas a caminho de sê-lo, as teclas de uma máquina igual a esta e a tecnologia de lançar palavras e obter palavras numa troca em tempo real. Uso uma metáfora bem sei, mas estou no domínio privilegiado da imagem e esta figura de retórica convém-me sobremaneira.
E agora penso: quando ele me escrevia, que jeito tinham os dedos no toque das teclas? Mais: quais usava para premi-las: os indicadores de ambas as mãos? o anelar da direita e o indicador da esquerda? os anelares da direita e da esquerda? que combinação de dedos utilizou sempre que teclou as palavras que me chegavam, enredadas em mistério? E mais ainda: que hesitações teve no traçado das letras que compuseram cada palavra? Quantas apagou, querendo escrevê-las sem ter para tanto ousadia, e como as reescreveu, na antecipação do efeito da resposta almejada?
Como era a sala em que escrevia? Que cenário lhe oferecia a parede fronteira, que quadros na parede, que janelas, que plantas decorando o espaço? Que música lhe entrava nos ouvidos e como ajeitava as pernas debaixo da mesa e como eram essas pernas que assim se dobravam ou cruzavam ao sabor do impulso?
E o rosto, esse ignorado, de quantas expressões se foi compondo, quantas vezes mordeu o lábio, ou descerrou a boca num sorriso, como se lhe foram abrindo os olhos, cuja cor não soube, e como se iluminaram ou ofuscaram perante a palavra devolvida ou no próprio gesto de esculpir a frase?
Esteve sempre sozinho? Falava só comigo, escrevia só a mim, ou havia outros e outras em conversas cruzadas e adjacentes?
Sáo perguntas iniciais, bem o sei e apenas algumas das muitas que irão ocorrer-me à medida que delas for necessitando. E contudo, não saber hoje nada disto e ter a certeza de que nunca irei sabê-lo, ainda que, na hora em que recebia mensagens e lhes devolvia resposta, estas enunciações teriam feito sentido, faz-me permanecer atónita, perplexa: como pude inventar um homem, através das palavras, inventá-lo minuto a minuto ou segundo a segundo, no pequeno signo traçado no mísero rectângulo da máquina, e nunca inquirir sobre os dedos exactos que, naquele momento premiram as teclas da palavra de encantamento! Sim, porque eram sedutoras as mensagens e poderosas as palavras... e não deveria eu saber, questionar, sondar quais os músculos precisos que naquele preciso instante pressionaram os pequenos botões negros? Negros?! Seriam negros?! Os meu são... mas... e os dele? estão a ver? Nunca quis saber, ignoro a cor do teclado onde milhares de palavras foram fabricadas, ignoro com que jeito ele tocava o enter libertador da mensagem... e isso enche-me de surpresa! Passaram meses, tenho ocupado o meu pensamento com dezenas de profundas questões existenciais sobre este fenómeno a cujo tratamento dou início por esta via e, contudo, nada sei do que no fundo mais importa: quem era ele, esse meu interlocutor mediato, como era, que aspecto tinham as suas mãos, como as ajeitava sobre o teclado, como se lhe inclinavam as costas, se lhe dobravam os joelhos, que jeito era o dos seus lábios, onde deixava o cigarro... é verdade o cigarro!... onde o abandonava ele, quando precisava de todos os dedos para escrever ou será que o conservava entre os dedos mesmo escrevendo... ou ... segurava-o com a boca e apanhava-o depois com a mão... e seria a esquerda ou a direita? Ah, nunca soube qual a mão privilegiada na escrita manual, nunca soube sequer o jeito da caligrafia e de que modo assinava! E no entanto foram milhares as palavras que me escreveu e outros tantos milhares aquelas que lhe fui devolvendo!
Mas nada disto teria importância, se não fosse o resto! Primeiro a envolvência fatal e fatídica dos laços das palavras, depois a urgência pregnante do desvendamento físico!
Não, eu bem sei que nada disto parece fazer sentido... mas o certo é que começo a descobrir-lhe um e talvez ele seja o início da tomada de posse da ponta do fio que nos foi enredando até transformar-se num novelo gigantesco!
Atónita, rendida a um imenso absurdo comunicativo, encerro aqui a minha crónica inicial.