
ATIRAI-LHES ROSAS
Rosas
atirai-lhes rosas
para cima dos púlpitos
onde erguem carrancas
desmesuradas
gritando impropérios
feitos hinos beatos
Rosas
atirai-lhes rosas
dessas
feitas de plástico
espalmadas
nas lojas baratas
Rosas
atirai-lhas sempre
como se estivésseis a sacudir moscas
e arrancai-os à força
do alto das cátedras
onde eles pregam hinos
de loucuras báquicas
Rosas
atirai-lhas sempre
vá lá
que não vos doa
o braço esquelético
que deixastes afinar
na cegueira
e no desânimo
e puxai pelos cabelos
e retirai às mãos cheias
punhados desgrenhados
que lhes atirareis também
quando as rosas se esmigalharem
de tanto suplício
Rosas
estas
e aquelas
deixai que cresçam
nos jardins
ou porque não
bravias e quentes
nos desertos
por onde passam
apenas carneiros
que não as cheiram
nem as pisam
pois só querem devorá-las
é disso que vivem
eles
os carneiros
e vós pactuais
no rebanho sinistro
da vossa escravidão
enquanto
afastadas as rosas
das cabeças coroadas
as vozes se afinam
de novo nos púlpitos
proclamando uma fé
que nunca possuíram
mas que vos obrigam à força
a jurar de joelhos
e vós
temerosos
de todos os infernos
acenais que sim
murchas as rosas
ainda que de plástico
desfeito o orvalho
ainda que frouxo
e sabei que foi tudo
o que tínheis para ver
no templo vazio
dos fiéis
e dos santos
Rosas
sempre rosas
daquelas fanadas
que nem os mortos desejam
daquelas tombadas
de todos os cenários
daquelas vendidas
nas esquinas
e nas feiras
mas atirai-as sempre
e construí um dique
uma ponte
um cerco
e tapai-lhes as bocas
consumidas e vãs
e contudo gritando
sementes de acaso

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