Thursday, October 16, 2008

Thursday, May 22, 2008

Wednesday, May 14, 2008

URGINDO PROMESSAS


URGINDO PROMESSAS






Uma seiva escura
polifera ácida
nos ventres acuados
dos mendigos trôpegos
arrostados em lume
nas sombras do meio dia
quando o luar despojou
suas vestes marfínicas
e uma corrente púrpura
esgazeada e dúctil
fez-se aquele oceano
outrora esvaído



O rei lançou
um estribilho de escárneo
porque os seus vassalos
haviam transportado
o trono falso para longe da bruma
e entretanto voou
o segredo das sombras
entre gélidos mantos
de cristalina poalha


Só ficou a pomba
entre desvairadas reses
só restou a cinza
entre ruínas de arcadas
só se viu o gume
de espadas ferrugentas
só se ouviu o gemido
das sinfonias breves


E quando o profeta
partiu da montanha
ainda havia tumulto
na raiz do vale
e então o crepúsculo
encomendou a noite
urgindo promessas
de solidão e treva

Friday, May 02, 2008

ATIRAI-LHES ROSAS


ATIRAI-LHES ROSAS


Rosas
atirai-lhes rosas
para cima dos púlpitos
onde erguem carrancas
desmesuradas
gritando impropérios
feitos hinos beatos

Rosas
atirai-lhes rosas
dessas
feitas de plástico
espalmadas
nas lojas baratas

Rosas
atirai-lhas sempre
como se estivésseis a sacudir moscas
e arrancai-os à força
do alto das cátedras
onde eles pregam hinos
de loucuras báquicas

Rosas
atirai-lhas sempre
vá lá
que não vos doa
o braço esquelético
que deixastes afinar
na cegueira
e no desânimo
e puxai pelos cabelos
e retirai às mãos cheias
punhados desgrenhados
que lhes atirareis também
quando as rosas se esmigalharem
de tanto suplício

Rosas
estas
e aquelas
deixai que cresçam
nos jardins
ou porque não
bravias e quentes
nos desertos
por onde passam
apenas carneiros
que não as cheiram
nem as pisam
pois só querem devorá-las
é disso que vivem
eles
os carneiros
e vós pactuais
no rebanho sinistro
da vossa escravidão
enquanto
afastadas as rosas
das cabeças coroadas
as vozes se afinam
de novo nos púlpitos
proclamando uma fé
que nunca possuíram
mas que vos obrigam à força
a jurar de joelhos
e vós
temerosos
de todos os infernos
acenais que sim
murchas as rosas
ainda que de plástico
desfeito o orvalho
ainda que frouxo
e sabei que foi tudo
o que tínheis para ver
no templo vazio
dos fiéis
e dos santos

Rosas
sempre rosas
daquelas fanadas
que nem os mortos desejam
daquelas tombadas
de todos os cenários
daquelas vendidas
nas esquinas
e nas feiras
mas atirai-as sempre
e construí um dique
uma ponte
um cerco
e tapai-lhes as bocas
consumidas e vãs
e contudo gritando
sementes de acaso

Friday, March 28, 2008

Thursday, March 27, 2008

Tuesday, March 25, 2008

Saturday, March 22, 2008

O Besta Célere (ficção)


CAPÍTULO 100


Eram seis horas e trinta e três minutos de uma espécie de madrugada invernosa quando o Besta Célere abriu os olhos estremunhado. Levantou-se de supetão da enxerga onde se enrodilhara toda a noite e já vermelho de fúria apesar do frio ou talvez por causa dele pois o vermelho pode acossar o rosto por via do frio ou do calor ou por nenhum deles, mas isso não sabemos pois estamos a olhá-lo pela primeira vez (ainda que o conheçamos intimamente) agarrou o despertador electrónico e agitou-o com fúria. Mais uma vez a estúpida da máquina o traíra, estorvando a rigidez automática dos seus horários e já lá iam um trinta e cinco segundos de atraso que (ele sabia-o bem) iria pagar caro daí a pouco ou quem sabe mais para o fim do dia.
Entretanto percebeu outra coisa e ficou ainda mais enfurecido: viu que aquelas reflexões prematuras (só se permitia pensar depois das oito da manhã) lhe tinham extorquido mais alguns segundos o que constituía uma autêntica tragédia.
Como já dormia meio vestido para não perder tempo de manhã e apenas tomava banho aos sábados, pois ao fazer uma análise exaustiva das suas secreções corporais diárias percebera que não só lhe era essencial como alimento a camada de gordura depositada à superfície da pele, podendo comer menos e assim ganhar tempo, mas ainda que esfregar demasiado o corpo lhe consumia a epiderme frágil. Ora ele precisava de viver celeremente todos os segundos que numa espécie de vertigem iam correndo no carrilhão oculto dos confins do seu cérebro.
Calçar os sapatos, de cujos atacadores prescindira uma vez que era lento a apertá-los, dado o esmero que usava aplicar nesse gesto (muitas vezes os fios embaraçavam-se e davam nós pelo que despendia ainda mais tempo na operação) costumava ser um acto rápido pois deixava-os na linha e orientação exactas da descida da cama bastando-lhe pôr os pés no chão para os ter de imediato enfiados nos pés. Naquele dia, nervoso por causa do despertador outra vez avariado (não dispunha de tempo, no seu apertado e célere horário para investigar as causas desse embaraço electrónico) aflito com a perda de segundos na fúria inicial do dia, só encontrou os sapatos à segunda tentativa percebendo que já se haviam escoado mais cinco segundos de modo absolutamente despropositado.
Tinha colocado a cama na cozinha, quase ao lado da mesa e a dois passos do fogão, e assim bastava-lhe um pequeníssimo movimento do corpo para aceder aos utensílios necessários ao pequeno-almoço que aos poucos reduzira a um ritual mínimo de onde excluíra primeiro as torradas, pelo tempo que demoravam a ficar a seu gosto, depois o café pois apreciava-o moído no momento e coado gota a gota numa geringonça herdada da bisavó e em seguida o leite que jamais conseguia beber antes de o ferver duas vezes com um pavor quase irracional das bactérias e do vírus tremendo causador da encefalopatia espongiforme bovina, as primeiras responsáveis por incómodas diarreias que o compeliam a gastar demasiados minutos em torno da sanita ou, uma vez na rua, a procurar com aflição os quase sempre imundos lavabos públicos, o segundo ainda mais apavorante pois tremendo e oscilando como uma vaca louca de que modo poderia aproveitar o tempo com a precisão rígida do seu sistema cronometrado ao milésimo de segundo?
Por isso, acabara concebendo uma espécie de papa feita essencialmente com aveia a que juntava sumo de fruta a qual lhe dava para três dias; estava no entanto a congeminar (embora só se permitisse gastar nessa congeminação dois segundos por dia) um plano para armazenar sem riscos uma maior quantidade do produto e não ter necessidade de perder cerca de vinte e três minutos de três em três dias na elaboração da mixórdia.
Retirou para o prato as cinco colheres do preparado com que costumava alimentar-se todas as manhãs não só porque chegara à conclusão que tal porção lhe era suficiente do ponto de vista calórico, dada a sua baixa estatura e a sua compleição quase esquelética, mas essencialmente porque os segundos que demorava a deglutir a substância, exactamente quarenta e cinco e três décimas, lhe davam a satisfação do cumprimento de tempo exacto para tão trivial ocupação.
Ele sabia que embora fosse Besta Célere de seu nome próprio e apelido era, no fundo, um homem e, como tal alimentar-se ainda lhe era indispensável; mas a sua experiência de vivente racional ensinara-lhe que as esquisitices do paladar não faziam o mínimo sentido e que qualquer mistura de ingredientes desde que previamente pesados e analisados quanto às suas propriedades nutrientes servem à manutenção do corpo e não lhe pareciam dignas de sujeitos pensantes preocupações excessivas com semelhantes matérias.
Depois de comer e em passo acelerado, subiu dois lanços de escadas o que era um incómodo insolúvel já que não conseguira ainda maneira de instalar o quarto de banho mais próximo do espaço onde dormia e se alimentava, dada a panóplia de canos antigos e outros mecanismos ali instalados há décadas (herdara a casa da bisavó, a mesma que lhe deixara a tornada inútil geringonça do café) e sem se preocupar com as teias de aranha e a poeira acumuladas pelos tectos e corredores acedeu a um imaculado espaço onde de imediato baixou as calças que também não tinham fecho ou botões mas apenas um cómodo elástico e que costurara às cuecas para não necessitar de executar duas vezes um gesto tão inútil quanto fastidioso e demorado (por vezes os elásticos não deslizavam pelas nádegas ossudas logo à primeira e Besta Célere desesperava na luta com os defeitos do vestuário vendo os segundos a escoar-se sem apelo ou remissão possíveis) e com rigor e precisão urinou e defecou em simultâneo permitindo-se nessa operação dez segundos inteiros os primeiros de verdadeiro prazer do dia emergente.
Celeremente, e após executada aquela função biológica escassa mas satisfatória dada a exiguidade e fácil digestão dos alimentos que seleccionara para a sua manutenção física, lavou as mãos e a cara, esfregou com uma esponja as partes baixas e outra vez em passadas rápidas, saltando as escadas duas a duas desceu ao rés-do-chão.
Nunca fazia a cama, quer dizer, não precisava pois há muito pusera de lado lençóis e cobertores usando para dormir um velho mas confortável saco-cama no qual se enfiava e do qual aprendera a sair sem sequer desapertar o fecho; também não lavava a loiça pois usava utensílios descartáveis que armazenava em enormes quantidades e dos quais se desfazia com toda a celeridade no primeiro contentor do lixo que encontrava no caminho, logo que saía de casa.
Ainda não era o tempo de começar a tarefa do pensamento, se bem que naquele dia houvesse infringido por alguns segundos essa regra de ouro: o relógio da parede dizia-lhe que eram exactamente sete horas e doze segundos o que significava um atraso de apenas um minuto o que era muito bom podendo ainda ser recuperado de forma satisfatória.
Besta Célere era muito religioso podemos mesmo dizer que era devoto até praticamente beato e, como não tinha tempo para rezar durante as suas ocupadíssimas vinte e quatro horas e sem rezar jamais conseguia fazer fosse o que fosse de jeito (desconfiava, aliás, que o atraso matinal se devia em grande parte ao facto de ter estado pouco atento nas orações do dia anterior pois sem o desejar certos pensamentos lhe chegaram antes do tempo marcado) era aquele o horário adequado às únicas e suficientes rezas do dia.
Entre a cama e o armário onde guardava as peças de vestuário essenciais à sua célere existência tinha instalado uma espécie de oratório numa mesa de pau-preto também herdada da bisavó, peça muito rara e valiosa talvez a única que se permitia utilizar pois dedicava-a aos seus diálogos com Deus e na sua predisposição de quase teólogo considerava que, mais do que ele ou qualquer outro homem, a divindade merecia essa consideração se bem que fosse apenas um luxo material e talvez Deus ou os santos pouco ligassem a semelhantes favores. De qualquer modo a mesa de pau-preto com as suas pernas trabalhadas e o brilho da cera que ele mantinha escrupulosamente radioso parecia-lhe por enquanto uma forma de homenagem. Deu um jeito com a mão aos cabelos crespos e negros, alisou a barba que usava comprida (desistira há tempos do inútil e moroso acto de barbear-se e aparava os pêlos em crescimento contínuo no último sábado de cada mês) endireitou as calças, meteu a camisa por dentro e alisou a camisola, retirou do armário um casaco de corte clássico vestiu-o apertando o único botão e ajoelhou-se com uma vénia e uma persignação célere numa puída almofada de veludo vermelho, outra herança da velha e há muito falecida bisavó.
A princípio, quando estabelecera para seu uso de Besta Célere (e este epíteto convinha-lhe tanto enquanto designação onomástica como em termos de carácter e de comportamento o que iremos vendo aos poucos à medida que o formos conhecendo) o horário e o modo de o viver em cada dia, costumava dar ao seu particular culto religioso o tempo de rezar um terço, embora tudo isto só pudesse ter acontecido quando decidiu converter-se ao catolicismo e aprender as orações respectivas. Aos poucos, porém, naquele tempo que ainda não chegara neste dia em que nos é apresentada tão peculiar personagem, e que dedicava a pensamentos de ordem prática ou minúsculas cogitações metafísicas, decidira abreviar a reza pois ao fazê-la seguindo as contas todas do rosário não só despendia um tempo considerável, muito mais do que podia permitir-se, como a repetição de tantas ave-marias e padres-nossos lhe parecia não só um desperdício como um encadeamento mecânico de palavras e de sons cedo esvaziados de sentido. E assim reduzira o terço a cinco ave-marias cinco pais-nossos e cinco glórias rematando a reza com uma salve rainha e o credo, oração que ele considerava imprescindível no reafirmar diário da crença. Tal devoção que ele se permitia fazer com tempo, se bem que condensado como já dissemos pois não rezava o terço inteiro, demorava-lhe exactamente trinta e três minutos o que é considerável mas temos que atender ao facto de o Besta Célere ser mesmo devoto e consciente, quase beato quase teólogo e quem sabe um dia padre quando tivesse tempo; por isso meditava cada uma das ave marias cujas palavras soletrava, cujo espírito tentava acompanhar reflexivamente, cuja importância salvadora tentava assimilar na mesma proporção com que assimilara antes as papas de aveia.
Dava-lhe um especial prazer repetir as palavras do pai-nosso.
Nem ele saberia explicar muito bem a si mesmo as razões da preferência por uma tal prece mas sempre que começava a recitar com uma voz suave e cava (rezava sempre em voz alta) Padre-nosso que estais no céu, e ele dizia sempre padre (e não pai) à maneira antiga, subia-lhe uma onda de calor e tinha que fechar os olhos por instantes no mais absoluto dos deleites. A seguir vinha a parte reflexiva, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, e ele achava extraordinário dar a outrem com tantos e tão grandiosos poderes o direito sagrado de decidir sobre tudo na terra e no céu e por isso sobre ele próprio Besta Célere ali rojado numa almofada vinda de outras macerações mas repleta de metafísica. Porém, a segunda parte do pai-nosso aquela referência singela ao pão-nosso quotidiano, aquele modo subtil em que o pai se faz pão e o divino se torna humano percorriam-no de um frémito extremo e ele bem via que fora abençoado pois esse pão metafórico era-lhe dado na labuta diária com que ia existindo celeremente. Chorava sempre no auge do perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido, ele bem via que deus lhe perdoava, mais que deus o privilegiava diariamente e esse privilégio esse perdão haviam conduzido ao esvaziamento completo de toda a mágoa que pudesse ainda restar no fundo de si quanto às ofensas alheias. Nem nelas pensava já há vários anos aceitava tudo o que lhe haviam feito como dádivas como bênçãos desse pai a quem devia muito mais do que alguma vez pensara ser possível. Pai com maiúscula entenda-se o pai do padre-nosso que quanto ao outro não se permitia sequer dedicar-lhe o mais ínfimo dos pensamentos. Perdoamos a quem nos tem ofendido e isto parecia-lhe uma troca tão bela com deus que nos perdoava a nós enquanto nós perdoamos aos outros e assim tudo se esvaziava de ofensas, para sempre um reinado sem ofensas sem ofendidos sem ofensores tudo por via desta espécie de negócio com o grande pai ou padre aquele que ele imaginava no seu arroubo místico muito parecido com ele Besta Célere de barba negra e cerrada de cabelos crespos e compridos de vida organizada e proficiente. As ave-marias não lhe mereciam tanta emoção reflexiva apenas se curvava mais e mais quase até tocar o azulejo frio da cozinha perante esse prodígio virginal capaz de engendrar uma criatura predestinada pensando uma e muitas vezes na própria mãe que nunca vira mas que revestia com as cores azuis e brancas dessa virgem apesar de tudo mãe. As restantes orações eram complementos destas duas jaculatórias ou recitativos com que louvava as virtudes celestiais e assim chegava ao auge, o credo, aquela reafirmação contínua da crença que não lhe fora incutida por ninguém mas a que chegara por circunstâncias inefáveis que a seu tempo narraremos.
Depois da longa meditação que se permitia em torno destas extraordinárias orações só tinha o tempo suficiente para se levantar e, com celeridade, agarrar os instrumentos de trabalho que já tinha acondicionados junto à maciça porta de entrada para sair de casa aonde só regressaria doze horas depois.



(continua)


Wednesday, February 13, 2008

A Tentação do Deserto e do Tiro




Max Ernst



A TENTAÇÃO DO DESERTO E DO TIRO



ERA UMA VEZ um homem que se perdeu no deserto por uma teimosia ridícula, por um desafio infantil, por uma aposta... vocês sabem: o tédio empurra os homens para as mais estranhas competições.
Atravessar o deserto sem comer e sem beber eis o que esse louco pretendia provar como sendo possível. O certo é que se perdeu. E como no deserto não há caminhos e as fontes escasseiam o nosso homem sentou-se na areia, acocorou-se, embrulhou a cabeça nas mãos, na tentativa vã de impedir o calcinamento do cérebro e esperou a morte. Esperou, esperou, esperou, dias e mais dias, noites e mais noites e admirava-se, no seu coração, de que ela nunca mais chegasse, de que continuasse a respirar sem esforço, de que o seu sangue continuasse a fluir. Não ousava retirar a cabeça do aconchego das pernas erguidas com medo do que iria ver quando abrisse os olhos, pois sabia que podia abri-los embora os mantivesse fechados e tudo fosse escuridão.
Passaram anos, anos, anos. Aos anos sucederam-se os séculos e o nosso homem lá estava, no centro do deserto, e nenhuma tempestade de areia conseguiu que um só cabelo se lhe erguesse da cabeça solidamente amarrada entre os dedos.
Um dia, pela primeira vez em séculos de espera, outro homem atravessou o deserto e deu com aquela sombra estática, absurda, ponto na infinitude. Sacou do revólver, aproximou-se, pé ante pé, e apontou às costas do que acreditava ser o inimigo. O tiro partiu mas ninguém caiu, nenhum sangue jorrou, nenhum baque se ouviu... Apenas o deserto areento doravante desprovido de sombras humanas de cócoras no tempo.
Regina Sardoeira, Fábulas e Mentiras

Sunday, February 10, 2008

Comunicar ou talvez não

Comunicar pode ser ainda não comunicar há muitos universos muitos arremedos de inteligência muitas orientações de vida sabemos lá quem lê o que escrevemos quem ouve o que dizemos quem enfim pode ser ou vir a ser o nosso espelho afinal pouco sabemos de nós mesmos e quantas vezes queremos arvorar-nos em juízes de outrem em classificadores dos méritos de outrem e erramos ou não erramos porque o erro pode bem ser a desculpa de não possuirmos a omnisciência que demos a Deus em vez de a guardarmos para nós e inventamos mitos Prometeu Tântalo Sísifo e os outros todos e mesmo uma caixa de Pandora que nos atrevemos a responsabilizar pelos nossos infortúnios cobardes que somos nós os humanos com asas metafóricas que nos alçariam nos ares corporizados e rentes ao chão sempre rentes ao chão presos na miséria do conformismo e da auto-complacência atirando pedradas a tudo o que não é parecido connosco sempre atirando pedras aos que estranhamos por não serem como nós eu não queria ter piedade deste mundozinho que me cerca não queria porque a piedade enfraquece e não posso permitir-me ser fraca nunca pude mas às vezes é tão triste o espectáculo da arrogância que só um esforço enorme me afasta desse estranho sentimento pelo qual e no qual me veria arrastada para perniciosos labirintos (Agradecia aos hipotéticos leitores que não se dessem ao trabalho de corrigir este texto pois foi mesmo assim que quis escrevê-lo e não com os pontos e vírgulas e demais sinalética da gramática convencional que como todos vós aprendi mas que me apraz rebater e excluir para meu próprio deleite e no uso inteiro da minha liberdade de artista além disso faço-vos um favor e ajudo-vos a exercitar a atenção tão necessária neste mundo em que usamos andar constantemente distraídos o parenteses foi uma necessidade reparai bem)