Sunday, November 24, 2013

Sunday, October 25, 2009

«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»




«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»






Asneira é uma palavra derivada de asno e, pelo menos entre os humanos, um asno é um estúpido, um homem (ou mulher) que faz, diz ou escreve asneiras. Os asnos não falam, não escrevem e são usados como metáfora, sem dúvida cruel e injusta, para designar um ser humano de vistas curtas e inteligência diminuta: se fosse preciso, pediria desculpa aos asnos verdadeiros por utilizar aqui a palavra asneira, do nome deles derivada. Porém, felizmente para mim e para eles, não terei que levar a cabo um tal pedido: eu uso apenas a palavra, sem pensar nos animais que, contrariamente à etimologia, do seu nome advinda, não produzem asneira, e eles nada sabem destas artimanhas verbais dos homens, pelo que ficamos todos bem - eu e os asnos (esses mesmos, os de quatro patas, os de orelhas compridas).

Ultimamente tenho ouvido muitas asneiras: e eis-me de novo a sair a terreiro para defender José Saramago. Não que ele precise seja de quem for para defendê-lo, mas porque a ignorância que grassa nas mentes é de tal modo grotesca que resolvi prestar alguns esclarecimentos a quem eles puderem ser, eventualmente, úteis.

Ainda não tive oportunidade de pôr a mão no livro «Caim» pois toda a atoarda emitida pelos meios de comunicação social, toda a polémica, e consequente criação de escândalo, produziram o efeito de varrer das livrarias a obra que foi esgotando em lotes sucessivos; quando decidi comprá-lo, não o encontrei em parte alguma. Porém, contrariamente a muitos daqueles que pregam contra as heresias, alegadamente proferidas nesse livro, eu conheço suficientemente a Bíblia para entender razoavelmente o sentido da expressão usada por Saramago ao referir-se ao livro sagrado como «um manual de maus costumes».

Obviamente que Saramago está a levar em conta o Antigo Testamento, esse em que um deus cruel e vingador pontifica como protagonista e desencadeador de inúmeras carnificinas, injustiças, calamidades, destruições, ódios, vinganças e por aí adiante. Um deus que, por inércia e ócio, se diverte a criar um mundo e nele dois seres privilegiados: o Homem e a Mulher. Instala-os no Jardim do Éden, fá-los senhores absolutos de um local de delícias mas com alguns limites, dentro do seu superior controle. Deixa-os fazer tudo, permite-lhes o prazer, a indolência, a gula, apresenta-lhes frutos prodigiosos e sumarentos das diversas árvores do Jardim: mas aponta-lhes uma, talvez a mais frondosa e colorida, decerto a que, no centro do Paraíso, prometia maiores delícias gustativas, e ordena: «Daquela não podereis comer, porque no dia em que o fizerdes expulsar-vos-ei do Paraíso!» Porém, ela estava lá, essa árvore magnífica, e o primeiro par de humanos passava por ali nas suas deambulações e não conseguia entender por que razão lhes era vedado tocar naquela, precisamente naquela, e só naquela. Que quereria Deus dizer com «expulso-vos do Paraíso»? E porque razão comer um fruto de uma árvore, no meio de tantos frutos de tantas árvores poderia ser motivo para «expulsão»? E mais: expulsão, para onde, se eles nada conheciam que não fosse aquele jardim, para eles concebido?

Ao mesmo tempo que deus criou a proibição, inventou, de igual modo, a tentação e a dúvida, inventou o engenho nas inteligências primevas e amodorradas dos primeiros humanos, que se sentiram inevitavelmente atraídos para aquilo que lhes havia sido proibido, querendo perceber a razão de semelhante restrição e, quem sabe?, entender também o sentido do termo expulsão e as consequências de semelhante castigo. Logo, deus criou, em simultâneo, a origem do pecado e o próprio pecado pois construiu Adão e Eva com uma perplexidade inicial, com um dilema e com um desafio. Deu-lhes tudo, à excepção do livre-arbítrio, concedeu-lhes o alimento do corpo em profusão, mas não lhes alimentou, do mesmo modo, a imaginação e a inteligência. E assim, inevitavelmente, os dois habitantes do Éden comem da árvore proibida! Eles «tinham» que comer e deus sabia disso. Eles «tinham» que vencer o desafio da proibição, ultrapassando-o, e deus também o sabia. Logo, deus criou Adão e Eva com essa capacidade inicial para não resistir à beleza de um fruto interdito pelo criador e sabia que estava a criá-los exactamente assim.

Que deus é este que gera a perfeição, mas lhe coloca, de imediato, limites e entraves? Que deus é este que dá tudo às suas criaturas – aquelas que criou à sua imagem e semelhança – e lhes põe permanentemente debaixo do olhar e de todos os sentidos o obstáculo à mesma perfeição? Que deus é este que coloca a espada da cisão e o fantasma da expulsão humilhante à frente dos seres criados como seu reflexo terreno?

Adão e Eva comem o fruto interditado e percebem uma quantidade de coisas que a cegueira amodorrada do jardim das delícias lhes tinha impedido de ver. E deus, o pai e criador, não está com meias medidas: expulsa-os e condena-os a uma existência dura e ingrata, envia-os para terrenos inóspitos que precisarão de cavar com as próprias mãos, de onde deverão fazer emergir o alimento, antes oferecido graciosamente, e obriga-os a multiplicarem-se como os outros seres da natureza na aflição e na dor.

Manual de maus costumes? É claro! Um pai que proíbe, sem explicar porque proíbe, um pai que ameaça castigar o prevaricador, sem dar qualquer indício do sentido de semelhante prevaricação, um pai que castiga e condena esses dois primeiros pecadores, e todos os outros que deles serão gerados, a um nascimento contaminado por uma falta absurda, insensata, ridícula. Imitaríamos nós um tal pai? Seríamos capazes de educar deste modo os filhos por nós concebidos?

Depois, Adão e Eva, na labuta terrena, engendram dois filhos: Caim e Abel. E deus, vigilante, observa que a índole de um é diferente da índole do outro e, em vez de acarinhar o mais fraco, em vez de se intrometer positivamente na construção do carácter de Caim, favorece, com a sua predilecção, Abel, o melhor dos dois, gerando a inveja, o ódio, o ímpeto assassino no desfavorecido, no rejeitado. Ambos trabalham e ambos oferecem a deus o produto das suas respectivas tarefas, cereais e cordeiros, e enquanto o pai e criador, recebe com agrado as oferendas de um, rejeita com desprezo as dádivas do outro. Que admira que a raiva recrudescente tenha levado Caim a matar Abel e a suprimir desse modo o privilegiado, seu rival, sua sombra, instrumento do seu castigo e da sua desgraça aos olhos de deus? Afinal, quem matou Abel não foi Caim, foi deus, esse que discriminou e enraiveceu e enregelou um irmão perante o outro, esse que a partir dessa hora abriu caminho para todas as guerras fratricidas perpetradas pelos milénios além e que, apesar dos esforços de muitos homens, continuam e continuarão acesas no lume sanguinário do sangue irado de Caim.

Manual de maus costumes? É claro! Que pai humano rejeita e abomina o seu filho, mesmo quando ele erra, que pai humano não se dispõe a acarinhar o filho mais fraco ou rebelde para o colocar no bom caminho? Que pai humano estabelece diferenças entre os seus filhos e rejeita ostensivamente as oferendas do menos bom que, apesar de ser menos bom, ainda assim quer agradar ao progenitor?

E um dia, o criador do mundo e dos seus primeiros habitantes humanos, obrigados a dar à luz em partos sucessivos, obrigados a descender de Caim, o ignominiado, o fugitivo, obrigados a albergar em si a semente do mal, neles deposta pelo próprio criador, enjoa-se da sua obra, fica repugnado com a miséria das suas criaturas reles, reles, porque ele assim as quis, reles porque reles era também o mesmo criador. Não pensa redimir o seu próprio erro e emendar, num gesto omnipotente, a mão inicial, salvando as criaturas perdidas pela sua própria incapacidade de educar a criatura. Torna-se assassino declarado e elimina toda a espécie num dilúvio universal, de onde não pretende deixar escapar a sombra de um homem; mas faz pior ainda: elege, de entre todos, um casal e a sua família, os únicos que no seio das multidões perversas e pervertidas lhe merecera complacência e, nesse gesto, discrimina, de novo, afunda nas águas revoltas homens, mulheres e crianças e apenas salva aquele punhado de seres, com a promessa de que, mais tarde, eles seriam a condição de um mundo melhor: esse que ele, enquanto deus, não foi capaz de conceber e executar.

Manual de maus costumes? Na história dos homens, só os bárbaros e os loucos, os tiranos e os ditadores promoveram, no mundo tal como o conhecemos hoje, genocídios aproximados a este! Só os degenerados que, apesar do sacrifício da geração de Noé continuaram a ser concebidos e tolerados por deus criador, levam a cabo, em pequena escala, um procedimento de tal modo cruel e implacável!

E a saga bíblica prossegue e encontramos um certo Abraão, dilecto de Deus, um homem poderoso e chefe de outros homens numa tribo de pastores, um homem eleito e contudo incapaz de ter um filho apesar de muitos pedidos a esse deus clemente e piedoso. E eis que em extrema velhice deus permite que Sara, a mulher estéril de Abraão, conceba e dê à luz um filho, Isaac, o primogénito, o descendente. Tudo parecia estar no devido lugar, até ao momento em que deus fala a Abraão e lhe exige que suba à montanha e uma vez ali, no silêncio absoluto e sem testemunhas lho ofereça em sacrifício! E Abraão não hesita, temente a deus, servil e incauto, e conduz Isaac inocente até ao sítio indicado por deus e, uma vez ali amarra-o, levanta a faca para degolá-lo; até que deus proclama: «Provaste a tua fé, por isso desamarra Isaac e sacrifica-me aquele cordeiro!»

Manual de maus costumes? Que Deus é este que dá um filho a um pai e o faz amá-lo e depois lho arranca na satisfação mesquinha de um simples capricho – «quero ver se valho alguma coisa para este homem, quero ver se ele tem fé em mim, quero testar de novo o meu poder!» Qual de nós obedeceria a semelhante Deus e se disporia a matar o próprio filho para satisfazer um capricho, por mais divino que fosse ou aparentasse ser? Qual de nós não morreria de horror perante a necessidade de assistir à morte terrível do sangue do nosso sangue, por nós mesmos executada? Qual de nós seria capaz de regressar para casa de boa consciência, mesmo depois do cancelamento do acto executório, e olhar nos olhos o filho prestes a ser executado e a mãe, companheira de vida e amante desse único filho gerado apesar da própria esterilidade?

Poderia prosseguir durante páginas e páginas mas não me parece que valha a pena. Estes exemplos chegam para definir o carácter desse nosso alegado criador, desse tirano caprichoso e incompetente, incapaz de fazer seja o que for de bom, e apesar disso vingando-se nas suas vítimas da própria imbecilidade.

Muito mais tarde, aparentemente, deus fez uma boa acção: inventou um filho mestiço – semi humano, semi divino – deu-lhe qualidades positivas e ordenou-lhe que salvasse os homens, pô-lo em condições de corrigir a sua maldade e incompetência criadora. Esse homem enigmático e de origem misteriosa, Jesus, inverte o sentido da implacabilidade criminosa do pai, anuncia o perdão, o amor, a benevolência e a tolerância. Opõe ao gume do machado, o gesto da bondade, ao grito de furor, a serenidade das palavras, à saga da destruição, a quietude de um mundo feito na concórdia. Todos sabemos que já era tarde demais, todos vemos que o hebreu Jesus passou pela terra sem que um só o entendesse cabalmente, a ponto de tornar universal a verdadeira boa nova. E de novo, o cristianismo emergente das palavras e dos actos cifrados desse filho de deus e do homem, miscigenado em corrupção divina e inocência humana, gerou crimes, ódio, guerra!

Manual de maus costumes? Que deus é este que envia um filho, através de um embuste humano – uma virgem que procria – para a seguir o condenar à morte ignominiosa dos ladrões e dos assassinos? Que deus é este que não é suficientemente eficaz enquanto pai, desta vez directo, de gerar um filho com a competência absoluta e efectiva de redimir o aleijão, criado e consentido, que dá pelos nomes de mundo e de humanidade?

Vá lá, vão ler a Bíblia, esse livro que tanto mal tem feito aos homens, geração após geração, leiam-no com sentido crítico, analisem-no com inteligência, não dêem ouvidos aos pregadores que inventaram, há um ou dois séculos, que, afinal, a Bíblia é apenas literatura, um texto magnífico engendrado por pessoas inspiradas e que tudo o que ali se consigna significa o contrário do que está expresso! Analisem aquelas histórias aterradoras e maquiavélicas como se elas fossem mesmo a história da nossa génese, e não como metáforas de um deus, afinal complacente e justo, mas desfigurado nas linhas alegóricas da mistificação literária. Talvez a seguir possam concordar com Saramago e admitir que a Bíblia é, de facto, um manual de maus costumes, um relato de perversões e maldades, de crimes e genocídios e que tudo isso tem a marca de um suposto criador, tido como omnipotente e infinitamente bom, mas afinal fraco, caprichoso e absurdamente maléfico.

Friday, February 13, 2009

Thursday, October 16, 2008

Thursday, May 22, 2008

Wednesday, May 14, 2008

URGINDO PROMESSAS


URGINDO PROMESSAS






Uma seiva escura
polifera ácida
nos ventres acuados
dos mendigos trôpegos
arrostados em lume
nas sombras do meio dia
quando o luar despojou
suas vestes marfínicas
e uma corrente púrpura
esgazeada e dúctil
fez-se aquele oceano
outrora esvaído



O rei lançou
um estribilho de escárneo
porque os seus vassalos
haviam transportado
o trono falso para longe da bruma
e entretanto voou
o segredo das sombras
entre gélidos mantos
de cristalina poalha


Só ficou a pomba
entre desvairadas reses
só restou a cinza
entre ruínas de arcadas
só se viu o gume
de espadas ferrugentas
só se ouviu o gemido
das sinfonias breves


E quando o profeta
partiu da montanha
ainda havia tumulto
na raiz do vale
e então o crepúsculo
encomendou a noite
urgindo promessas
de solidão e treva

Friday, May 02, 2008

ATIRAI-LHES ROSAS


ATIRAI-LHES ROSAS


Rosas
atirai-lhes rosas
para cima dos púlpitos
onde erguem carrancas
desmesuradas
gritando impropérios
feitos hinos beatos

Rosas
atirai-lhes rosas
dessas
feitas de plástico
espalmadas
nas lojas baratas

Rosas
atirai-lhas sempre
como se estivésseis a sacudir moscas
e arrancai-os à força
do alto das cátedras
onde eles pregam hinos
de loucuras báquicas

Rosas
atirai-lhas sempre
vá lá
que não vos doa
o braço esquelético
que deixastes afinar
na cegueira
e no desânimo
e puxai pelos cabelos
e retirai às mãos cheias
punhados desgrenhados
que lhes atirareis também
quando as rosas se esmigalharem
de tanto suplício

Rosas
estas
e aquelas
deixai que cresçam
nos jardins
ou porque não
bravias e quentes
nos desertos
por onde passam
apenas carneiros
que não as cheiram
nem as pisam
pois só querem devorá-las
é disso que vivem
eles
os carneiros
e vós pactuais
no rebanho sinistro
da vossa escravidão
enquanto
afastadas as rosas
das cabeças coroadas
as vozes se afinam
de novo nos púlpitos
proclamando uma fé
que nunca possuíram
mas que vos obrigam à força
a jurar de joelhos
e vós
temerosos
de todos os infernos
acenais que sim
murchas as rosas
ainda que de plástico
desfeito o orvalho
ainda que frouxo
e sabei que foi tudo
o que tínheis para ver
no templo vazio
dos fiéis
e dos santos

Rosas
sempre rosas
daquelas fanadas
que nem os mortos desejam
daquelas tombadas
de todos os cenários
daquelas vendidas
nas esquinas
e nas feiras
mas atirai-as sempre
e construí um dique
uma ponte
um cerco
e tapai-lhes as bocas
consumidas e vãs
e contudo gritando
sementes de acaso