Wednesday, February 13, 2008

A Tentação do Deserto e do Tiro




Max Ernst



A TENTAÇÃO DO DESERTO E DO TIRO



ERA UMA VEZ um homem que se perdeu no deserto por uma teimosia ridícula, por um desafio infantil, por uma aposta... vocês sabem: o tédio empurra os homens para as mais estranhas competições.
Atravessar o deserto sem comer e sem beber eis o que esse louco pretendia provar como sendo possível. O certo é que se perdeu. E como no deserto não há caminhos e as fontes escasseiam o nosso homem sentou-se na areia, acocorou-se, embrulhou a cabeça nas mãos, na tentativa vã de impedir o calcinamento do cérebro e esperou a morte. Esperou, esperou, esperou, dias e mais dias, noites e mais noites e admirava-se, no seu coração, de que ela nunca mais chegasse, de que continuasse a respirar sem esforço, de que o seu sangue continuasse a fluir. Não ousava retirar a cabeça do aconchego das pernas erguidas com medo do que iria ver quando abrisse os olhos, pois sabia que podia abri-los embora os mantivesse fechados e tudo fosse escuridão.
Passaram anos, anos, anos. Aos anos sucederam-se os séculos e o nosso homem lá estava, no centro do deserto, e nenhuma tempestade de areia conseguiu que um só cabelo se lhe erguesse da cabeça solidamente amarrada entre os dedos.
Um dia, pela primeira vez em séculos de espera, outro homem atravessou o deserto e deu com aquela sombra estática, absurda, ponto na infinitude. Sacou do revólver, aproximou-se, pé ante pé, e apontou às costas do que acreditava ser o inimigo. O tiro partiu mas ninguém caiu, nenhum sangue jorrou, nenhum baque se ouviu... Apenas o deserto areento doravante desprovido de sombras humanas de cócoras no tempo.
Regina Sardoeira, Fábulas e Mentiras

Sunday, February 10, 2008

Comunicar ou talvez não

Comunicar pode ser ainda não comunicar há muitos universos muitos arremedos de inteligência muitas orientações de vida sabemos lá quem lê o que escrevemos quem ouve o que dizemos quem enfim pode ser ou vir a ser o nosso espelho afinal pouco sabemos de nós mesmos e quantas vezes queremos arvorar-nos em juízes de outrem em classificadores dos méritos de outrem e erramos ou não erramos porque o erro pode bem ser a desculpa de não possuirmos a omnisciência que demos a Deus em vez de a guardarmos para nós e inventamos mitos Prometeu Tântalo Sísifo e os outros todos e mesmo uma caixa de Pandora que nos atrevemos a responsabilizar pelos nossos infortúnios cobardes que somos nós os humanos com asas metafóricas que nos alçariam nos ares corporizados e rentes ao chão sempre rentes ao chão presos na miséria do conformismo e da auto-complacência atirando pedradas a tudo o que não é parecido connosco sempre atirando pedras aos que estranhamos por não serem como nós eu não queria ter piedade deste mundozinho que me cerca não queria porque a piedade enfraquece e não posso permitir-me ser fraca nunca pude mas às vezes é tão triste o espectáculo da arrogância que só um esforço enorme me afasta desse estranho sentimento pelo qual e no qual me veria arrastada para perniciosos labirintos (Agradecia aos hipotéticos leitores que não se dessem ao trabalho de corrigir este texto pois foi mesmo assim que quis escrevê-lo e não com os pontos e vírgulas e demais sinalética da gramática convencional que como todos vós aprendi mas que me apraz rebater e excluir para meu próprio deleite e no uso inteiro da minha liberdade de artista além disso faço-vos um favor e ajudo-vos a exercitar a atenção tão necessária neste mundo em que usamos andar constantemente distraídos o parenteses foi uma necessidade reparai bem)